Bom
essa é a nossa pergunta inicial, que tentarei responder ao longo deste texto.
Quando
recebo pacientes que estão a procura de um relacionamento amoroso uma das
primeiras tarefas que fazemos é: Elaborar uma lista com as características (físicas,
gostos e valores, personalidade...) que a pessoa precisa ter e quais “defeitos”
eu (paciente) tolero? Gosto de pensar que relacionamentos são feitos de pessoas
imperfeitas, com seus erros e acertos, pensar quais as características
positivas eu gostaria que ela(ele) tivesse, é fácil? Mas... essa pessoa não
encaixará exatamente nos seus desejos, como os ditados populares insistem em
dizer: “a tampa da minha panela” (com encaixe perfeito?), “a metade da minha
laranja” (?!), ou ainda como os contos de fadas erroneamente afirmam: e a príncipe a beijou (na cena mais linda e perfeita, como o príncipe aliás) e
foram felizes para sempre... que a música contradiz sabiamente “que o pra
sempre, sempre acaba”.
É
importante pensar o que você espero do relacionamento, assim como se perguntar
quais defeitos você consegue aceitar, dentro dos seus valores e limites. É
simples: tem “coisas” que você não aceitaria, outras dá para conviver... rsrsrs
O
problema da pergunta inicial é justamente escolher alguém que para ser “ideal”
precise mudar. Ou que para que o
relacionamento dê certo, precise se transformar em uma outra pessoa. Alguns
ajustes até podem ser necessários, um aperfeiçoar-se, por isso, ele precisa ter
aspectos que eu admiro e valorizo, com algumas imperfeições que podem ser
relevadas, ou com um toque de delicadeza, lapidada.
É
fato que por amor algumas pessoas mudam, e na maioria das vezes para melhor,
mas isso não é uma regra. Conheci uma pessoa certa vez que para namorar com a
garota que gostava parou de beber. Nesse caso ele mudou para melhor, porque
deixou uma vida de bebedeiras, de bares, de inconsequências e assumiu uma vida mais responsável e madura.
Um
relacionamento que comece com uma perspectiva de mudança, já começa complicado.
Mudar exige esforço, desejo e motivação. É preciso querer. O que vemos com maior frequência é o “defeito”
aumentando com o tempo. Vou usar novamente a bebida como exemplo, por ser um
problema comum e que mesmo que você não viva um problema assim, será fácil de
imaginar e compreender. Uma esposa que reclama das bebedeiras do marido, quando
questionada como ele era antes do casamento, responderá: “ele já bebia, porém
não era nessa intensidade e frequência”. O fato é que com o tempo algumas
imperfeições se acentuam. E aí começam os desconfortos. Por isso, é necessário
pensar quais defeitos, limites e dificuldades você consegue aceitar.
Voltando
a pergunta inicial: Mas ele pode mudar, não pode? Sim, acredito que todos podem
mudar, porém, como vimos acima, é preciso pensar se esse relacionamento
realmente vale a pena, uma vez que já começa com uma perspectiva de mudança.
Porém, há muitos casos que o relacionamento ajuda a melhorar, a curar feridas e
a tomar atitudes diferentes diante de determinadas situações da vida. No entanto,
gostaria de deixar essa reflexão aqui: por que para aceitá-lo e para darmos
certo ele(a) precisa mudar? Vale a pena investir em um relacionamento assim? O
outro percebe a necessidade de mudar? Ele(a) percebe essa mudança como
necessária e como uma forma de aperfeiçoamento pessoal? Está disposto a mudar?
Também
gostaria de colocar um outro ponto para refletir: por que você precisa que o
outro mude? Essa mudança é realmente necessária, ou ela faz parte das suas
inseguranças?
Esse
post tem por objetivo proporcionar a reflexão, e não dar uma receita de como os
relacionamentos podem ser mais prazerosos, afinal, se um relacionamento é feito
de duas pessoas, teremos pelo menos duas visões diferentes, dois modos de
responder à vida e dois modos de perceber o que acontece ao redor. Por isso, é
preciso ter cuidado, não existe certo ou errado, mas modos diferentes de viver.


2 comentários:
O pior é que a maioria das pessoas ainda insistem em acreditar que somente o outro deve mudar. Não aceitam a máxima, quando eu mudo tudo muda.
Excelente reflexão.
Verdade Vera, se compreendêssemos que muitas vezes o que precisa mudar é a nossa percepção a vida seria mais leve.
Postar um comentário